Rito
do "sabe com quem está falando?":
·
Implica
em uma separação radical e autoritária de duas posições sociais real ou
teoricamente diferenciadas.
·
Maneira
de dirigir-se a um outro popular entre os brasileiros
·
Motivo
de orgulho para ninguém - dado a carga considerada antipática e pernóstica da
expressão -, fica escondido de nossa imagem como um modo indesejável de ser
brasileiro, pois que revelador do nosso formalismo e da nossa maneira velada de
demonstração dos mais violentos preconceitos.
·
É
a negação do "jeitinho", da "cordialidade" e da
"malandragem", esses traços sempre tomados para definir como fez
Sérgio Buarque de Holanda (1973).
·
Parece
estar mesmo implantada - ao lado do carnaval, do jogo do bicho, do futebol e da
malandragem - no nosso coração cultural.
·
Um
recurso escuso ou ilegítimo à disposição dos membros da sociedade brasileira.
Em outras palavras,
ensinamos o samba e o futebol, falamos da praia e da mulher brasileira, das
nossas informalidades e aberturas (certamente indicadoras de nossa vocação
realmente democrática), mas jamais estampamos diante da criança e do
estrangeiro o "sabe com quem está falando?
(Observação: Parece
me aqui que DaMatta generaliza todo o território brasileiro pela sua percepção
do litoral. Mais especificamente a Zona Sul carioca.)
A
expressão remete a uma vertente indesejável da cultura brasileira. Pois o rito
autoritário indica sempre uma situação conflitiva, e a sociedade brasileira
parece avessa ao conflito. Não que com isso se elimine o conflito. Ao
contrário, como toda sociedade dependente, colonial e periférica, a nossa tem
um alto nível de conflitos e de crises. Mas entre a existência da crise e o seu
reconhecimento existe um vasto caminho a ser percorrido.
Será mais correto dizer:
Camadas
dominantes e vencedoras sempre adotam a perspectiva da solidariedade, ao passo
que os dissidentes e dominados assumem sistematicamente a posição de revelar o
conflito, a crise e a violência do nosso sistema. O erro, e isso nos parecem
evidente, é perder de vista as dialéticas da vida social e tomar uma das
posições como certa, achando que somente ela representa uma visão correta da
nossa realidade social.
Procurar
interpretar a expressão como um rito de autoridade - um traço sério e revelador
da nossa vida social.
Visão simplista da questão a ser
analisada:
O "sabe com quem está falando?"
seria como o racismo e o autoritarismo: algo que ocorre entre nós por acaso,
sendo dependente apenas de um "sistema" implantado pelos grupos que
detêm o poder.
O
que significa isso do ponto de vista sociológico? Seremos um povo
contraditório, incapaz de reconhecer nossos níveis de irracionalidade? Ou uma
sociedade que privilegia alguns dos seus aspectos e os toma como veículos para
a construção de sua auto representação?
Teoria e prática do “Sabe com quem está falando?”
As
situações em que se pode usar o "sabe com quem está falando?":
·
Condições
sociais em que determinado ego usaria o rito de separação, como ocasiões
globais em que se procura "sentir-se importante" ou "mostrar a
posição social";
·
Sentir
sua autoridade ameaçada (ou diminuída);
·
Desejar
impor de forma cabal e definitiva seu poder;
·
Inconsciente
ou conscientemente perceber no seu interlocutor uma possibilidade de inferioriza-Io
em relação ao seu status social;
·
For
pessoa interiormente fraca ou que sofre de complexo de inferioridade;
·
O
interlocutor, de uma forma ou de outra, é percebido como ameaça ao cargo que
ocupa."
Os
nossos famosos ditados "um lugar para cada coisa, cada coisa em seu
lugar", "cada macaco no seu galho" etc. Fica assim revelada uma
enorme preocupação com a posição social e uma tremenda consciência de todas as
regras (e recursos) relativos à manutenção, perda ou ameaça dessa posição.
Alexis de Tocqueville:
"Os costumes e praxes estabelecidos pela primeira classe da sociedade
servem de modelo a todas as outras, cada uma das quais, por sua vez, estabelece
seu código próprio, a que todos os seus membros são obrigados a obedecer.
Assim, as regras de polidez formam um complexo sistema de legislação, difícil
de ser dominado perfeitamente, mas do qual é perigoso para qualquer um
desviar-se; por isso, os homens estão constantemente expostos a infligir ou
receber, involuntariamente, afrontas amargas"
(Observação:
o que seria uma “expressão” do brasileiro já teria sido analisado por
Tocqueville no século XIX. Se é algo exclusivamente nosso, estaríamos em um “estágio
evolutivo” ou presos no passado?)
Medo
do ridículo e da palhaçada: máscara que carrega nosso respeito e nossa honra de
pessoas;
A
expressão “sabe com quem está falando é empregada de cima para baixo:
Pessoas
situadas em categorias teoricamente
incapacitadas para usar a fórmula: membros das classes dominadas ou dos grupos
destituídos de poder (empregadas domésticas, serventes e crianças).
O comportamento de alguém que sendo
subordinado de um "grande", se torna pernóstico e perde a noção de suas verdadeiras origens,
ficando por isso mesmo um "besta", um "convencido", um
"mascarado" (termo significativo).
Crianças
também usam a fórmula de afastamento, utilizando para tanto uma identificação
com a área social ocupada por seus pais: "Sabe com quem está falando? Sou
filho de Fulano de Tal!"
Mulheres
em geral usam a identidade (e a identificação) com seus maridos como recursos
para estabelecer suas diferenças. Temos, pois, o "sabe com quem está
falando? Sou esposa do Deputado Fulano de Tal!" usado para encerrar um
certo problema.
Esses
casos revelam que os inferiores
estruturais não deixam de usar o "sabe com quem está falando?"
que não é exclusivo de uma categoria, grupo, classe ou segmento social.
Indica uma estrutura social em que a
hierarquia parece estar baseada na intimidade
social.
Analisar
o sistema social brasileiro por um prisma não só econômico, mas observando
também a conduta social (e política), possibilitando, como estamos vendo, a
identificação entre dominador e
dominado.
temos
a atitude hierarquizante que diferencia os iguais: dois empregados que recebem
o mesmo salário e estão sujeitos ao mesmo regime de exploração social são
diferenciados pelos seus patrões (com base na cor, inteligência, postura,
moralismo etc.) e, pela mesma Lógica, se diferenciam entre si, Pode-se, pois,
estabelecer padrões de diferenciação interna com base em critérios outros que
os da diferenciação dominante.
O
sistema iguala num plano e hierarquiza no outro, o que promove uma tremenda
complexidade classificatória, um enorme sentimento de compensação e
complementaridade, impedindo certamente a tomada de consciência social
horizontal.
·
consciência
vertical;
·
empregado
identificando-se em certas ocasiões com o seu patrão;
No
Brasil tudo indica que o Estado é o domínio responsável pela totalização de
todo o sistema na sua vertente formal e acabada.
No
Brasil, vivemos certamente mais a ideologia das corporações de oficio e
irmandades religiosas, com sua ética de identidade e lealdade verticais, do que
as éticas horizontais que chegaram com o advento do capitalismo ao mundo
ocidental e à nossa sociedade.
(Observação: “no Brasil” ou “no meu ponto de
vista”? O autor utiliza-se da expressão “no Brasil” 26 vezes neste texto.)
O
"sabe com quem está falando?”, em contraste com o domínio das relações impessoais,
acaba por ser uma fórmula de uso pessoal, desvinculada de camadas ou posições
economicamente demarcadas. Todos têm o direito de se utilizar do "sabe com
quem está falando?", e mais, sempre haverá alguém no sistema pronto a recebe-Io
(porque é inferior) e pronto a usá-lo
(porque é superior).
É
um instrumento de uma sociedade em que as relações pessoais formam o núcleo
daquilo que chamamos de "moralidade" (ou "esfera moral"), e
tem um enorme peso no jogo vivo do sistema sempre ocupando os espaços que as
leis do Estado e da economia não penetram.
Variantes
Equivalentes:
“Quem você pensa
que é?"
|
"Onde você
pensa que está?"
|
"Recolha-se à
sua insignificância!"
|
"Mais amor e
menos confiança"
|
"Vê se te
enxerga!"
|
"Você não
conhece o seu lugar?"
|
"Veja se me
respeita!"
|
"Será que não
tem vergonha na cara?"
|
“Mais
respeito!"
|
A
maioria dessas expressões assume uma forma interrogativa, o que, no Brasil,
surge como um modo evidentemente não cordial.
A
indagação está ligada ao inquérito, forma de processamento jurídico acionado
quando há suspeita de crime ou pecado, de modo que a pergunta deve ser evitada.
É
uma recusa exaltada do "não-saber”, já que impede que o interlocutor deixe
de saber com quem está interagindo.
Somos
socializados (na família e na escola) aprendendo a não fazer muitas perguntas.
Seja porque isso é indelicado, seja porque é considerado um traço agressivo que
somente deve ser utilizado quando queremos "derrubar" alguém.
Se
no Brasil utilizamos o “sabe com quem está falando?” para nos posicionarmos hierarquicamente
superiores a outro individuo, o “quem você pensa que é?” é utilizado pelos
americanos com um sentido inverso. Colocando o outro como um pedante com pretensões a
superioridade atuando num plano da fantasia, pois, é certamente ele que pensa
(tornando a realidade social subjetiva) algum direito a mais do que os outros.
"Sabe
com quem está falando?" não parece ser uma expressão nova, mas velha,
tradicional entre nós. Assim, na medida em que símbolos tradicionais de posição
social.Passou a ser mais utilizada, para que os superiores pudessem marcar suas diferenças e continuassem a
viver no mundo hierarquizado.
Hoje
se usa mais o "sabe com quem está falando?" justamente porque a
totalidade do sistema fundado no "respeito", na "honra", no
"favor" e na "consideração" está a todo momento sendo
ameaçado pelo eixo do econômico e da legislação.
Diante
da lei geral e impessoal que igualava juridicamente, o que fazia o membro dos
segmentos senhoriais e aristocráticos? Estabelece-se uma corrente de contra
hábitos visando demarcar as diferenças e retomar a hierarquização do mundo nos
domínios onde isso era possível.
A
partir da publicação da obra de Gilberto Freyre Temos a glorificação da
miscigenação, do mestiço e da mulataria. Mas não se pode esquecer que, em
ambas, o corpo é o elemento central
da elaboração ideológica, formando a
unidade básica do plano hierarquizador. Onde o negro é atrasado e débil e o
branco figura como o civilizador.
Reagimos
de modo radicalmente diverso dos americanos diante da esmagadora igualdade
jurídica que veio com a Abolição da escravidão em ambos os países. Lá, criou-se
imediatamente um contra sistema legal para estabelecer as diferenças que haviam
sido legalmente abatidas: era o racismo em ideologia, prática social aberta e
constituição jurídica. Aqui a esfera em que as diferenças se manifestaram foi a
área das relações pessoais, um domínio certamente ambíguo porque permitia
hierarquizar na base do "sabe com quem está falando?”. Sendo assim, não
fizemos qualquer contra legislação que definisse um sistema de relações
raciais fechado e segregacionista, com base no princípio do "iguais, mas
separados".
Vestígios da nossa
hierarquização informal na obra de Lima Barreto:
A
impessoalidade das regras universais sempre distorcidas em nome de uma relação
pessoal importante. Descrição pormenorizada do mundo social brasileiro.
"Passando
assim pelos preparatórios [Lima Barreto se referia aos exames de ingresso às
escolas superiores e escrevia em 1917] os futuros diretores da República dos
Estados Unidos de Bruzundanga acabam os cursos mais ignorantes e presunçosos do
que quando lá entram. São esses tais que berram: - Sou formado! Está falando
com um homem formado!"
Em
sistemas igualitários, indivíduos são diferenciados informalmente por influência
social ou algum prestigio na sociedade, estes são chamadas de VIPs. Gozam, assim, de uma fama
justificada e de um prestígio especial que se manifesta no modo pelo qual são
tratados: livres das regras constrangedoras do sistema, colocados unanimemente
numa espécie de Nirvana social, um Himalaia das escalas hierárquicas, acima das
brigas rotineiras.
Ser
o filho do presidente, do delegado, do diretor conta como cartão de visitas.
O
"SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO? COMO DRAMATIZAÇÃO DO MUNDO SOCIAL
A
noção de dramatização social já que a situação a ser analiticamente
reconstruída é vista pelos membros da sociedade como um "drama", uma
"cena", um momento acima além ou aquém - das rotinas que governam o
mundo diário.
Tomemos
alguns casos representativos:
1. Estacionamento de automóveis. O
guardador diz a um motorista que não há vaga. Então o motorista: - "Sabe
com quem está falando?", e revela sua identidade de oficial do Exército.
- Moça espera um ônibus ou táxi. Policiais pedem à
moça sua identidade. Ela diz: - "Sabe com quem estão falando? Sou
moça de família, filha de Fulano etc.".
- Senhora resolve fazer compras. Estaciona seu
carro em cima da calçada. O guarda a localiza. Ela diz: "Sabe com
quem está falando? Sou a esposa do Deputado Fulano de Tal!"
- Alguém viaja para o exterior e deseja importar
material taxado pela alfândega. No dia da chegada, estando tudo combinado,
a pessoa passa pela fiscalização sem problemas, pois o fiscal sabe com
quem está falando.
- Antessala de um gerente de banco, algumas pessoas
esperam sua vez. Um senhor, após
esperar com impaciência alguns minutos, diz: - "sabe com quem está
falando? Sou o Fulano de Tal, e ele logo depois é atendido.
- Na portaria de um hospital, alguém deseja entrar.
O porteiro não deixa. O homem que deseja entrar diz: "Sabe com quem
está falando?" E mostra sua identidade de médico.
- Numa há um acidente de automóvel. O motorista visivelmente
errado. O guarda sugere propina. O homem fica indignado e usando o
"sabe com quem está falando?" identifica-se como promotor
público, prendendo o guarda.
- Uma moça visita seu tio. Passa um desconhecido e lhe dirige um
gracejo. Ouvindo-o , o tio lhe dá um soco, dizendo: "Sabe com quem
está falando? A moça é minha sobrinha!"
9. Posto de atendimento público. Senhor na fila espera. O guichê está sendo
fechado e o atendimento do público, suspenso. O expediente terminaria mais cedo
por ordem do chefe. Manda chamar o chefe e, identificando-se como presidente do
órgão em pauta, despede todo o grupo.
10. Uma batida de automóveis. Dois
motoristas esperando o pior. Um deles grita: "Sabe com quem está falando?
Sou coronel do Exército!" E outro diz: "Eu também," Então eles
se olham, reconhecem-se e resolvem enfrentar o problema com calma.
Todos
os casos configuram uma situação dramática de grave conflito entre duas pessoas.
As
marcas de suas identidades sociais, na busca do esmagamento do adversário.
Uma
plateia, onde cada um dos disputantes procura convencer o grupo a tomar o seu
partido contra o outro, e o grupo agindo como mediador e legitimador entre os
dois.
O
"sabe com quem está falando?" contribui e manifesta essa
"desconfiança básica do mundo".
O
outro é alguém que aparece na cena
com uma identidade geral, não especificada, o que lhe confere o anonimato, pois
o guarda todos sabe quem é, mas ninguém imagina quem seja a pessoa prestes a
ser autuada, presa ou colocada sob suspeita.
O
"sabe com quem está falando?" como uma forma de trazer à consciência
dos atores aquelas diferenças necessárias às rotinas sociais em situações de
intolerável igualdade.
A
violência ocorre porque ela denuncia a necessidade da hierarquização.
Realmente, parece-me que se é verdade que os "homens livres" estão
desgarrados. Os "homens livres" teriam de ser no mínimo duplos: de um
lado, voltados para uma igualdade vista como um ideal e da hierarquia, e de
outro uma estrutura que se sustentava por meio da escravidão generalizada,
equilibrada em todo país.
a violência no mundo brasileiro é mais um instrumento utilizado quando os outros
meios de hierarquizar determinada
situação falham irremediavelmente. Deste modo, pode-se perfeitamente equacionar
o "sabe com quem está falando?" com a violência.
(Observação: trocou aqui a expressão “no
Brasil” por “no mundo brasileiro” (deve ser jabuticaba isso)
Dramatização
correlacionada ao anonimato, ou melhor, a uma intolerância ao anonimato que
parece trivial em sociedades "holísticas" e hierarquizadas.
A
dramatização é clara, pois o momento culminante da situação é constituído pela
apresentação enfática de uma outra identidade social que - em geral- tem pertinência
e pode até ser básica, mas em outro domínio social.
A
revelação de identidades ocorre com a apresentação da "carteira de
identidade; nossa polícia prende sistematicamente pessoas "sem
documentos" (sem identidade ou possibilidade de identificação). O documento
deverá conter fotografia, idade, filiação, assinatura e "cútis".
A
apresentação do documento apropriado, acompanhado do "sabe com quem está
falando?", faz com que a figura anônima passe a ser um ser humano
completo, concreto, com poder e prestígio, beleza e graça, e sobretudo com relações com pessoas poderosas (deputado,
advogado, oficial das Forças Armadas, secretário de Estado etc., Ou, o que é
ainda melhor, parente e amigo) .
·
"Aos inimigos a lei, aos
amigos, tudo!"
·
A
lógica de uma sociedade formada de "panelinhas", de
"cabides" e de busca de projeção social jaz na possibilidade de se
ter um código duplo relacionado aos valores da igualdade e da hierarquia.
·
Nos
casos em que a lei está ausente, o "sabe com quem está falando?"'
serve para chamar a lei do mais forte, da informalidade.
O sistema opera como se tivéssemos
duas bases por meio das quais pensássemos o nosso sistema. Por meio das leis
gerais e da repressão, seguimos
sempre o código burocrático ou a vertente impessoal e universalizante,
igualitária, do sistema. “Mas, no caso das situações concretas seguimos sempre o código das relações e
da moral idade pessoal, tomando a vertente
do “jeitinho”,
da “malandragem” e da solidariedade como eixo de ação.
(Observação: o uso da 1ª pessoa do plural
novamente determinando uma característica exclusiva do brasileiro).
INDIVÍDUO, PESSOA E A SOCIEDADE
BRASILEIRA
·
A
descoberta de que, no sistema brasileiro, é básica a distinção entre o indivíduo e a pessoa como duas formas de conceber o universo social e de nele
agir:
·
A
ambiguidade parece patente;
·
Desmascara
situações e posições sociais;
·
Permite
passar de um estado a outro: do anonimato (individuo) a uma posição bem
definida e conhecida (pessoa);
·
Uma pessoa deve
ter precedência sobre a outra;
·
A visão conclusiva
é que existe uma complexa dialética entre o indivíduo e a pessoa.
No
Brasil, temos ao
lado do "sabe com quem está falando?, as famosas expressões "preto de
alma branca" e "dinheiro não traz felicidade", junto com a
equação segundo a qual trabalho é igual a castigo e riqueza é sinônimo de
sujeira, de coisa ilícita.
No sistema protestante (e capitalista),
o corpo vai junto com a alma, o dinheiro segue o trabalho, e o, indivíduo faz o
mundo e suas regras. Já entre nós, o
corpo é menor do que a alma, dinheiro e trabalho são coisas separadas e são as
pessoas que comandam.
Temos
modos muito mais poderosos de compensar as diferenças econômicas, já que nosso sistema, insisto, é múltiplo e
permite várias classificações.
Nos
Estados Unidos, a realidade é formada de indivíduos, ao passo que no Brasil a unidade social é a pessoa.
Nem lá nem cá desapareceram o indivíduo ou a pessoa. Apenas se balanceou o
sistema de modo diverso.
No Brasil, são inúmeras as expressões que
denotam o desprezo pelo "indivíduo” um elemento desgarrado do mundo humano
e próximo da natureza, como os animais.
No Brasil, o individualismo é também um
sinônimo e expressão cotidiana de egoísmo, um sentimento ou atitude social
condenada entre nós.
Medalhões: os figurões, os ideólogos, as
pessoas, aqueles que não nasceram, foram fundados, os líderes, eles mesmos
encarnando as correntes sociais que defendem e desejam implementar. A superpessoa
no Brasil tende a entrar num plano que chamei de Nirvana social, uma área onde ela fica acima e além das acusações,
passando a ser o que gostamos de chamar de "nosso patrimônio" ou,
melhor ainda, "patrimônio brasileiro ou nacional".
Na
esfera das pessoas, que aparece a ideologia da bondade e da caridade que
constitui um dos pontos altos de nossas definições como povo. Temos a caridade,
nunca a filantropia e, assim reforçamos as "éticas verticais" ligando
um superior a um inferior pelos sagrados laços da patronagem e da moralidade. Relações
hierárquicas. O mundo composto de fortes e fracos, ricos e pobres, patrões e
clientes, uns fornecendo aos outros aquilo de que eles não dispõem. As relações
não unem indivíduos mas pessoas.
AS
ÁREAS DE PASSAGEM
Reduzir
nossa sociedade a apenas dois universos (o das pessoas e o dos indivíduos)
seria simplificar demais o problema;
A
lei é uma faceta indissociável da moralidade pessoal e do jeitinho do mesmo
modo que o Caxias é o outro lado do malandro,
e o carnaval- já vimos nos capítulos
anteriores - é o reverso da parada de Sete
de Setembro;
O
domínio da pessoa é, no Brasil, o
domínio da família e da casa (dicotomia casa/rua). A saída de casa é, deste
modo, dramático.
Sistematicamente
evitamos o contato direto da pessoa com o domínio para o qual está passando,
sob pena de transformá-Ia diretamente em indivíduo: num ser anônimo e sujeito
às leis universais que governam o mundo. Então, ao longo dos ritos de passagem padrinhos, paraninfos, patrões, pistolões,
entidades espirituais e santos nos ajudam a enfrentar as dificuldades que a
"vida" põe em nosso "caminho".
“Brasileiros no exterior sentem
"saudade", ou seja, vêm a descobrir a terrível nostalgia do estado de
solidão, quando se situam diante de um mundo impessoal, sem nenhuma relação de
mediação e de complementaridade com ele. Uma reação a tal estado de coisas é a
atuação altamente destrutiva de certas pessoas na Europa e nos Estados Unidos,
a famosa "molecagem" ou "cafajestada" brasileira, que se
resume a pequenos roubos nas grandes lojas de departamentos, à destruição de
banheiros e telefones públicos, ao ensino de palavras de baixo calão a
estrangeiros etc. É como se estivéssemos buscando, pela violência, uma
complementaridade perdida com o nosso investimento no papel de indivíduo.
Rejeitando violentamente o sistema, talvez a complementaridade possa ser
novamente alcançada.”
Este
estudo revela que, no caso brasileiro, os sistemas globais, de caráter
universal, são permeados pelos sistemas de relações pessoais, fato que também
tem sido verificado em outras sociedades semitradicionais, o "sabe
com quem está falando?" revela a complexa convivência de um forte sistema
de relações pessoais embaraçado a um sistema legal, universalmente estabelecido
e altamente racional.
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