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Fichamento do texto “Sabe Com Quem Está Falando” de Roberto D


Rito do "sabe com quem está falando?":
·         Implica em uma separação radical e autoritária de duas posições sociais real ou teoricamente diferenciadas.
·         Maneira de dirigir-se a um outro popular entre os brasileiros
·         Motivo de orgulho para ninguém - dado a carga considerada antipática e pernóstica da expressão -, fica escondido de nossa imagem como um modo indesejável de ser brasileiro, pois que revelador do nosso formalismo e da nossa maneira velada de demonstração dos mais violentos preconceitos.
·         É a negação do "jeitinho", da "cordialidade" e da "malandragem", esses traços sempre tomados para definir como fez Sérgio Buarque de Holanda (1973).
·         Parece estar mesmo implantada - ao lado do carnaval, do jogo do bicho, do futebol e da malandragem - no nosso coração cultural.
·         Um recurso escuso ou ilegítimo à disposição dos membros da sociedade brasileira.

Em outras palavras, ensinamos o samba e o futebol, falamos da praia e da mulher brasileira, das nossas informalidades e aberturas (certamente indicadoras de nossa vocação realmente democrática), mas jamais estampamos diante da criança e do estrangeiro o "sabe com quem está falando?
(Observação: Parece me aqui que DaMatta generaliza todo o território brasileiro pela sua percepção do litoral. Mais especificamente a Zona Sul carioca.)
A expressão remete a uma vertente indesejável da cultura brasileira. Pois o rito autoritário indica sempre uma situação conflitiva, e a sociedade brasileira parece avessa ao conflito. Não que com isso se elimine o conflito. Ao contrário, como toda sociedade dependente, colonial e periférica, a nossa tem um alto nível de conflitos e de crises. Mas entre a existência da crise e o seu reconhecimento existe um vasto caminho a ser percorrido.
Será mais correto dizer:
Camadas dominantes e vencedoras sempre adotam a perspectiva da solidariedade, ao passo que os dissidentes e dominados assumem sistematicamente a posição de revelar o conflito, a crise e a violência do nosso sistema. O erro, e isso nos parecem evidente, é perder de vista as dialéticas da vida social e tomar uma das posições como certa, achando que somente ela representa uma visão correta da nossa realidade social. 

Procurar interpretar a expressão como um rito de autoridade - um traço sério e revelador da nossa vida social.
Visão simplista da questão a ser analisada:
O "sabe com quem está falando?" seria como o racismo e o autoritarismo: algo que ocorre entre nós por acaso, sendo dependente apenas de um "sistema" implantado pelos grupos que detêm o poder.
O que significa isso do ponto de vista sociológico? Seremos um povo contraditório, incapaz de reconhecer nossos níveis de irracionalidade? Ou uma sociedade que privilegia alguns dos seus aspectos e os toma como veículos para a construção de sua auto representação?

Teoria e prática do “Sabe com quem está falando?”
As situações em que se pode usar o "sabe com quem está falando?":
·         Condições sociais em que determinado ego usaria o rito de separação, como ocasiões globais em que se procura "sentir-se importante" ou "mostrar a posição social";
·         Sentir sua autoridade ameaçada (ou diminuída);
·         Desejar impor de forma cabal e definitiva seu poder;
·         Inconsciente ou conscientemente perceber no seu interlocutor uma possibilidade de inferioriza-Io em relação ao seu status social;
·         For pessoa interiormente fraca ou que sofre de complexo de inferioridade;
·         O interlocutor, de uma forma ou de outra, é percebido como ameaça ao cargo que ocupa."
Os nossos famosos ditados "um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar", "cada macaco no seu galho" etc. Fica assim revelada uma enorme preocupação com a posição social e uma tremenda consciência de todas as regras (e recursos) relativos à manutenção, perda ou ameaça dessa posição.
Alexis de Tocqueville: "Os costumes e praxes estabelecidos pela primeira classe da sociedade servem de modelo a todas as outras, cada uma das quais, por sua vez, estabelece seu código próprio, a que todos os seus membros são obrigados a obedecer. Assim, as regras de polidez formam um complexo sistema de legislação, difícil de ser dominado perfeitamente, mas do qual é perigoso para qualquer um desviar-se; por isso, os homens estão constantemente expostos a infligir ou receber, involuntariamente, afrontas amargas"
(Observação: o que seria uma “expressão” do brasileiro já teria sido analisado por Tocqueville no século XIX. Se é algo exclusivamente nosso, estaríamos em um “estágio evolutivo” ou presos no passado?)
Medo do ridículo e da palhaçada: máscara que carrega nosso respeito e nossa honra de pessoas;
A expressão “sabe com quem está falando é empregada de cima para baixo:
Pessoas situadas em categorias teoricamente incapacitadas para usar a fórmula: membros das classes dominadas ou dos grupos destituídos de poder (empregadas domésticas, serventes e crianças).
O comportamento de alguém que sendo subordinado de um "grande", se torna pernóstico e perde a noção de suas verdadeiras origens, ficando por isso mesmo um "besta", um "convencido", um "mascarado" (termo significativo).
Crianças também usam a fórmula de afastamento, utilizando para tanto uma identificação com a área social ocupada por seus pais: "Sabe com quem está falando? Sou filho de Fulano de Tal!"
Mulheres em geral usam a identidade (e a identificação) com seus maridos como recursos para estabelecer suas diferenças. Temos, pois, o "sabe com quem está falando? Sou esposa do Deputado Fulano de Tal!" usado para encerrar um certo problema.
Esses casos revelam que os inferiores estruturais não deixam de usar o "sabe com quem está falando?" que não é exclusivo de uma categoria, grupo, classe ou segmento social.
 Indica uma estrutura social em que a hierarquia parece estar baseada na intimidade social.
Analisar o sistema social brasileiro por um prisma não só econômico, mas observando também a conduta social (e política), possibilitando, como estamos vendo, a identificação entre dominador e dominado.
temos a atitude hierarquizante que diferencia os iguais: dois empregados que recebem o mesmo salário e estão sujeitos ao mesmo regime de exploração social são diferenciados pelos seus patrões (com base na cor, inteligência, postura, moralismo etc.) e, pela mesma Lógica, se diferenciam entre si, Pode-se, pois, estabelecer padrões de diferenciação interna com base em critérios outros que os da diferenciação dominante.
O sistema iguala num plano e hierarquiza no outro, o que promove uma tremenda complexidade classificatória, um enorme sentimento de compensação e complementaridade, impedindo certamente a tomada de consciência social horizontal.
·         consciência vertical;
·         empregado identificando-se em certas ocasiões com o seu patrão;
No Brasil tudo indica que o Estado é o domínio responsável pela totalização de todo o sistema na sua vertente formal e acabada.
No Brasil, vivemos certamente mais a ideologia das corporações de oficio e irmandades religiosas, com sua ética de identidade e lealdade verticais, do que as éticas horizontais que chegaram com o advento do capitalismo ao mundo ocidental e à nossa sociedade. 
 (Observação: “no Brasil” ou “no meu ponto de vista”? O autor utiliza-se da expressão “no Brasil” 26 vezes neste texto.)
O "sabe com quem está falando?”, em contraste com o domínio das relações impessoais, acaba por ser uma fórmula de uso pessoal, desvinculada de camadas ou posições economicamente demarcadas. Todos têm o direito de se utilizar do "sabe com quem está falando?", e mais, sempre haverá alguém no sistema pronto a recebe-Io (porque é inferior) e pronto a usá-lo (porque é superior).
É um instrumento de uma sociedade em que as relações pessoais formam o núcleo daquilo que chamamos de "moralidade" (ou "esfera moral"), e tem um enorme peso no jogo vivo do sistema sempre ocupando os espaços que as leis do Estado e da economia não penetram.
Variantes Equivalentes:
“Quem você pensa que é?"
"Onde você pensa que está?"

"Recolha-se à sua insignificância!"

"Mais amor e menos confiança"

"Vê se te enxerga!"

"Você não conhece o seu lugar?"

"Veja se me respeita!"

"Será que não tem vergonha na cara?"

“Mais respeito!"
A maioria dessas expressões assume uma forma interrogativa, o que, no Brasil, surge como um modo evidentemente não cordial.
A indagação está ligada ao inquérito, forma de processamento jurídico acionado quando há suspeita de crime ou pecado, de modo que a pergunta deve ser evitada.
É uma recusa exaltada do "não-saber”, já que impede que o interlocutor deixe de saber com quem está interagindo.
Somos socializados (na família e na escola) aprendendo a não fazer muitas perguntas. Seja porque isso é indelicado, seja porque é considerado um traço agressivo que somente deve ser utilizado quando queremos "derrubar" alguém.
Se no Brasil utilizamos o “sabe com quem está falando?” para nos posicionarmos hierarquicamente superiores a outro individuo, o “quem você pensa que é?” é utilizado pelos americanos com um sentido inverso. Colocando o outro como um pedante com pretensões a superioridade atuando num plano da fantasia, pois, é certamente ele que pensa (tornando a realidade social subjetiva) algum direito a mais do que os outros.
Rosto Confuso sem Preenchimento(Observação: a frase “quem você pensa que é?” também faz parte do repertório de expressões usadas no Brasil com o exato mesmo sentido que o autor grifou para a utilização americana.)
"Sabe com quem está falando?" não parece ser uma expressão nova, mas velha, tradicional entre nós. Assim, na medida em que símbolos tradicionais de posição social.Passou a ser mais utilizada, para que os superiores pudessem marcar suas diferenças e continuassem a viver no mundo hierarquizado.
Hoje se usa mais o "sabe com quem está falando?" justamente porque a totalidade do sistema fundado no "respeito", na "honra", no "favor" e na "consideração" está a todo momento sendo ameaçado pelo eixo do econômico e da legislação.
Diante da lei geral e impessoal que igualava juridicamente, o que fazia o membro dos segmentos senhoriais e aristocráticos? Estabelece-se uma corrente de contra hábitos visando demarcar as diferenças e retomar a hierarquização do mundo nos domínios onde isso era possível.
A partir da publicação da obra de Gilberto Freyre Temos a glorificação da miscigenação, do mestiço e da mulataria. Mas não se pode esquecer que, em ambas, o corpo é o elemento central da elaboração ideológica, formando a unidade básica do plano hierarquizador. Onde o negro é atrasado e débil e o branco figura como o civilizador.
Reagimos de modo radicalmente diverso dos americanos diante da esmagadora igualdade jurídica que veio com a Abolição da escravidão em ambos os países. Lá, criou-se imediatamente um contra sistema legal para estabelecer as diferenças que haviam sido legalmente abatidas: era o racismo em ideologia, prática social aberta e constituição jurídica. Aqui a esfera em que as diferenças se manifestaram foi a área das relações pessoais, um domínio certamente ambíguo porque permitia hierarquizar na base do "sabe com quem está falando?”. Sendo assim, não fizemos qualquer contra legislação que definisse um sistema de relações raciais fechado e segregacionista, com base no princípio do "iguais, mas separados".
Vestígios da nossa hierarquização informal na obra de Lima Barreto:
A impessoalidade das regras universais sempre distorcidas em nome de uma relação pessoal importante. Descrição pormenorizada do mundo social brasileiro.
"Passando assim pelos preparatórios [Lima Barreto se referia aos exames de ingresso às escolas superiores e escrevia em 1917] os futuros diretores da República dos Estados Unidos de Bruzundanga acabam os cursos mais ignorantes e presunçosos do que quando lá entram. São esses tais que berram: - Sou formado! Está falando com um homem formado!"

Em sistemas igualitários, indivíduos são diferenciados informalmente por influência social ou algum prestigio na sociedade, estes são chamadas de VIPs. Gozam, assim, de uma fama justificada e de um prestígio especial que se manifesta no modo pelo qual são tratados: livres das regras constrangedoras do sistema, colocados unanimemente numa espécie de Nirvana social, um Himalaia das escalas hierárquicas, acima das brigas rotineiras.
Ser o filho do presidente, do delegado, do diretor conta como cartão de visitas.
O "SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO? COMO DRAMATIZAÇÃO DO MUNDO SOCIAL
A noção de dramatização social já que a situação a ser analiticamente reconstruída é vista pelos membros da sociedade como um "drama", uma "cena", um momento acima além ou aquém - das rotinas que governam o mundo diário.
Tomemos alguns casos representativos:
1.       Estacionamento de automóveis. O guardador diz a um motorista que não há vaga. Então o motorista: - "Sabe com quem está falando?", e revela sua identidade de oficial do Exército.
  1. Moça espera um ônibus ou táxi. Policiais pedem à moça sua identidade. Ela diz: - "Sabe com quem estão falando? Sou moça de família, filha de Fulano etc.".
  2. Senhora resolve fazer compras. Estaciona seu carro em cima da calçada. O guarda a localiza. Ela diz: "Sabe com quem está falando? Sou a esposa do Deputado Fulano de Tal!"
  3. Alguém viaja para o exterior e deseja importar material taxado pela alfândega. No dia da chegada, estando tudo combinado, a pessoa passa pela fiscalização sem problemas, pois o fiscal sabe com quem está falando.
  4. Antessala de um gerente de banco, algumas pessoas esperam sua vez.  Um senhor, após esperar com impaciência alguns minutos, diz: - "sabe com quem está falando? Sou o Fulano de Tal, e ele logo depois é atendido.
  5. Na portaria de um hospital, alguém deseja entrar. O porteiro não deixa. O homem que deseja entrar diz: "Sabe com quem está falando?" E mostra sua identidade de médico.
  6. Numa há um acidente de automóvel. O motorista visivelmente errado. O guarda sugere propina. O homem fica indignado e usando o "sabe com quem está falando?" identifica-se como promotor público, prendendo o guarda.
  7. Uma moça visita seu tio.  Passa um desconhecido e lhe dirige um gracejo. Ouvindo-o , o tio lhe dá um soco, dizendo: "Sabe com quem está falando? A moça é minha sobrinha!"
9.       Posto de atendimento público.  Senhor na fila espera. O guichê está sendo fechado e o atendimento do público, suspenso. O expediente terminaria mais cedo por ordem do chefe. Manda chamar o chefe e, identificando-se como presidente do órgão em pauta, despede todo o grupo.
10.   Uma batida de automóveis. Dois motoristas esperando o pior. Um deles grita: "Sabe com quem está falando? Sou coronel do Exército!" E outro diz: "Eu também," Então eles se olham, reconhecem-se e resolvem enfrentar o problema com calma.

Todos os casos configuram uma situação dramática de grave conflito entre duas pessoas.
As marcas de suas identidades sociais, na busca do esmagamento do adversário.
Uma plateia, onde cada um dos disputantes procura convencer o grupo a tomar o seu partido contra o outro, e o grupo agindo como mediador e legitimador entre os dois.
O "sabe com quem está falando?" contribui e manifesta essa "desconfiança básica do mundo".
O outro é alguém que aparece na cena com uma identidade geral, não especificada, o que lhe confere o anonimato, pois o guarda todos sabe quem é, mas ninguém imagina quem seja a pessoa prestes a ser autuada, presa ou colocada sob suspeita.
O "sabe com quem está falando?" como uma forma de trazer à consciência dos atores aquelas diferenças necessárias às rotinas sociais em situações de intolerável igualdade.
A violência ocorre porque ela denuncia a necessidade da hierarquização. Realmente, parece-me que se é verdade que os "homens livres" estão desgarrados. Os "homens livres" teriam de ser no mínimo duplos: de um lado, voltados para uma igualdade vista como um ideal e da hierarquia, e de outro uma estrutura que se sustentava por meio da escravidão generalizada, equilibrada em todo país.
a violência no mundo brasileiro é mais um instrumento utilizado quando os outros meios de hierarquizar determinada situação falham irremediavelmente. Deste modo, pode-se perfeitamente equacionar o "sabe com quem está falando?" com a violência.
 (Observação: trocou aqui a expressão “no Brasil” por “no mundo brasileiro” (deve ser jabuticaba isso)
Dramatização correlacionada ao anonimato, ou melhor, a uma intolerância ao anonimato que parece trivial em sociedades "holísticas" e hierarquizadas.
A dramatização é clara, pois o momento culminante da situação é constituído pela apresentação enfática de uma outra identidade social que - em geral- tem pertinência e pode até ser básica, mas em outro domínio social.
A revelação de identidades ocorre com a apresentação da "carteira de identidade; nossa polícia prende sistematicamente pessoas "sem documentos" (sem identidade ou possibilidade de identificação). O documento deverá conter fotografia, idade, filiação, assinatura e "cútis".
A apresentação do documento apropriado, acompanhado do "sabe com quem está falando?", faz com que a figura anônima passe a ser um ser humano completo, concreto, com poder e prestígio, beleza e graça, e sobretudo com relações com pessoas poderosas (deputado, advogado, oficial das Forças Armadas, secretário de Estado etc., Ou, o que é ainda melhor, parente e amigo) .
·         "Aos inimigos a lei, aos amigos, tudo!"
·         A lógica de uma sociedade formada de "panelinhas", de "cabides" e de busca de projeção social jaz na possibilidade de se ter um código duplo relacionado aos valores da igualdade e da hierarquia.
·         Nos casos em que a lei está ausente, o "sabe com quem está falando?"' serve para chamar a lei do mais forte, da informalidade.
O sistema opera como se tivéssemos duas bases por meio das quais pensássemos o nosso sistema. Por meio das leis gerais e da repressão, seguimos sempre o código burocrático ou a vertente impessoal e universalizante, igualitária, do sistema. “Mas, no caso das situações concretas seguimos sempre o código das relações e da moral idade pessoal, tomando a vertente do “jeitinho”, da “malandragem” e da solidariedade como eixo de ação.
(Observação: o uso da 1ª pessoa do plural novamente determinando uma característica exclusiva do brasileiro).

INDIVÍDUO, PESSOA E A SOCIEDADE BRASILEIRA

·         A descoberta de que, no sistema brasileiro, é básica a distinção entre o indivíduo e a pessoa como duas formas de conceber o universo social e de nele agir:
·         A ambiguidade parece patente;
·         Desmascara situações e posições sociais;
·         Permite passar de um estado a outro: do anonimato (individuo) a uma posição bem definida e conhecida (pessoa);
·         Uma pessoa deve ter precedência sobre a outra;
·         A visão conclusiva é que existe uma complexa dialética entre o indivíduo e a pessoa.
No Brasil, temos ao lado do "sabe com quem está falando?, as famosas expressões "preto de alma branca" e "dinheiro não traz felicidade", junto com a equação segundo a qual trabalho é igual a castigo e riqueza é sinônimo de sujeira, de coisa ilícita.
No sistema protestante (e capitalista), o corpo vai junto com a alma, o dinheiro segue o trabalho, e o, indivíduo faz o mundo e suas regras. Já entre nós, o corpo é menor do que a alma, dinheiro e trabalho são coisas separadas e são as pessoas que comandam.
Temos modos muito mais poderosos de compensar as diferenças econômicas, já que nosso sistema, insisto, é múltiplo e permite várias classificações.
Nos Estados Unidos, a realidade é formada de indivíduos, ao passo que no Brasil a unidade social é a pessoa. Nem lá nem cá desapareceram o indivíduo ou a pessoa. Apenas se balanceou o sistema de modo diverso.
No Brasil, são inúmeras as expressões que denotam o desprezo pelo "indivíduo” um elemento desgarrado do mundo humano e próximo da natureza, como os animais.
No Brasil, o individualismo é também um sinônimo e expressão cotidiana de egoísmo, um sentimento ou atitude social condenada entre nós.
Medalhões: os figurões, os ideólogos, as pessoas, aqueles que não nasceram, foram fundados, os líderes, eles mesmos encarnando as correntes sociais que defendem e desejam implementar. A superpessoa no Brasil tende a entrar num plano que chamei de Nirvana social, uma área onde ela fica acima e além das acusações, passando a ser o que gostamos de chamar de "nosso patrimônio" ou, melhor ainda, "patrimônio brasileiro ou nacional".
Na esfera das pessoas, que aparece a ideologia da bondade e da caridade que constitui um dos pontos altos de nossas definições como povo. Temos a caridade, nunca a filantropia e, assim reforçamos as "éticas verticais" ligando um superior a um inferior pelos sagrados laços da patronagem e da moralidade. Relações hierárquicas. O mundo composto de fortes e fracos, ricos e pobres, patrões e clientes, uns fornecendo aos outros aquilo de que eles não dispõem. As relações não unem indivíduos mas pessoas.


AS ÁREAS DE PASSAGEM
Reduzir nossa sociedade a apenas dois universos (o das pessoas e o dos indivíduos) seria simplificar demais o problema;
A lei é uma faceta indissociável da moralidade pessoal e do jeitinho do mesmo modo que o Caxias é o outro lado do malandro, e o carnaval- já vimos nos capítulos anteriores - é o reverso da parada de Sete de Setembro;
O domínio da pessoa é, no Brasil, o domínio da família e da casa (dicotomia casa/rua). A saída de casa é, deste modo, dramático.
Sistematicamente evitamos o contato direto da pessoa com o domínio para o qual está passando, sob pena de transformá-Ia diretamente em indivíduo: num ser anônimo e sujeito às leis universais que governam o mundo. Então, ao longo dos ritos de passagem padrinhos, paraninfos, patrões, pistolões, entidades espirituais e santos nos ajudam a enfrentar as dificuldades que a "vida" põe em nosso "caminho".
“Brasileiros no exterior sentem "saudade", ou seja, vêm a descobrir a terrível nostalgia do estado de solidão, quando se situam diante de um mundo impessoal, sem nenhuma relação de mediação e de complementaridade com ele. Uma reação a tal estado de coisas é a atuação altamente destrutiva de certas pessoas na Europa e nos Estados Unidos, a famosa "molecagem" ou "cafajestada" brasileira, que se resume a pequenos roubos nas grandes lojas de departamentos, à destruição de banheiros e telefones públicos, ao ensino de palavras de baixo calão a estrangeiros etc. É como se estivéssemos buscando, pela violência, uma complementaridade perdida com o nosso investimento no papel de indivíduo. Rejeitando violentamente o sistema, talvez a complementaridade possa ser novamente alcançada.”

Este estudo revela que, no caso brasileiro, os sistemas globais, de caráter universal, são permeados pelos sistemas de relações pessoais, fato que também tem sido verificado em outras sociedades semitradicionais, o "sabe com quem está falando?" revela a complexa convivência de um forte sistema de relações pessoais embaraçado a um sistema legal, universalmente estabelecido e altamente racional.



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