Fichamento de Os Nuer
Uma
descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo
nilota de E. E. Evans Pritchard
Introdução
Parte da busca realizada por
Evans Pritchard sobre as populações Nuer e Dinka.
Nuer: povo nilota que se auto
denomina nath (singular ran); de aproximadamente 200 mil indivíduos vivendo nas
savanas planas que margeiam o rio Nilo; altos, de membros longos e cabeças
estreitas; Nuers e Dinkas se assemelham físico e culturalmente. Ambos os grupos reconhecem uma possível
origem em comum.
Evans Pritchard confessa
dificuldades para compreender o shilluk (idioma falado tanto pelo povo Nuer
quanto pelo povo Dinka), sua estrutura social e cultura.
O sistema político Nuer inclui
todos os povos com os quais eles têm contato. Os Nuer, os Shilluk e os Anuak
ocupam, cada um, um território continuo, porem cada grupo em sua grande área
separada. Os Nuer e os Dinka estão divididos em uma série de tribos que não
possuem uma organização comum ou uma administração central, formando assim uma
federação não muito rígida.
Povos Nuer ocidentais e povos
Nuer orientais. O maior segmento político entre os Nuer é a tribo. Unem-se na
guerra contra estranhos e reconhece o direito de seus membros ao ressarcimento
dos danos. Uma tribo divide-se em uma série de segmentos territoriais e estes
constituem mais do que meras divisões geográficas. Segmentos tribais = ‘seções
primarias’; segmentos de uma seção primaria = ‘seções secundárias’ e segmentos
de uma seção secundária = seções terciárias.
Chefe em pele de leopardo: pessoa
sagrada sem autoridade política, mediadora em momentos de crise. Os Nuer não possuem um governo centralizado.
Seu Estado pode ser descrito como uma anarquia ordenada. Chefes em pele de
leopardo e profetas são os únicos que talvez possuam alguma importância
política.
As linhagens Nuer são traçadas
por sua ascendência masculina até um ancestral em comum, sendo o clã o maior
grupo de linhagens e o definidor das uniões exogamicas. Um clã está segmentado
em linhagens que são ramos divergentes de descendência de um ancestral comum.
A população masculina adulta esta
estratificada em conjuntos etários. Os membros de cada grupo permanecem neste
até a sua morte. Juntos os grupos etários formam um sistema progressivo, os
conjuntos mais jovens vão passando por etapas até tornassem o grupo mais idoso.
Depois que esse grupo morre, o nome do grupo será utilizado novamente.
Dicotomia entre os sexos limitada
e de pouca interferência para as relações estruturais.
Não se pode dizer que os Nuer
estão estratificados em classes. A distinção de estrangeiros (de outros clãs ou
Dinkas incorporados) está mais para distinção de categoria do que de posição
social.
Dificuldades de aproximação, istalação e
contados com os Nuer em contraste com a receptividade quase servil dos Azandes.
Capítulo 1: Interesse pelo Gado
OS Nuer dependem grandemente do
meio ambiente. São boiadeiros, e o único trabalho em que têm prazer é no cuidar
do gado.
O relacionamento que o Nuer
mantém com seus vizinhos é influenciado pelo amor ao gado e pelo desejo de
adquiri-lo.
Cada seção tribal possui seus
próprios pastos e reservas de água, e a cisão política relaciona-se intimamente
com a distribuição desses recursos naturais, pertencente a cada clãs ou linhagem.
Exogâmicos que unem suas famílias
em função de gado. O matrimônio é realizado através do pagamento em gado e
todas as fases do ritual são marcadas pela transferência ou sacrifício do
mesmo. O status legal dos cônjuges e dos filhos é determinado por direitos e
obrigações sobre o gado.
O gado é propriedade das
famílias. Cada filho quando atinge a idade matrimonial, ele se casa retirando
vacas do rebanho. O filho seguinte terá de esperar até que o rebanho se recomponha
para então casar-se. Quando o chefe da família morre, o rebanho ainda continua
como centro da vida familiar e os Nuer desaprovam vivamente o fato de
desmanchá-lo.
O vínculo de gado entre irmãos
continua por longo tempo depois que cada um tem sua casa e seus filhos, pois
quando a filha de qualquer um deles se casa, os demais recebem uma grande parte
de seu dote.
Os homens Nuer são frequentemente
chamados por nomes que dizem respeito à forma e cor de seus bois favoritos, e
as mulheres recebem nome de seu gado. A identificação linguística de um homem
com seu boi predileto não pode deixar de afetar sua atitude para com o animal,
esse costume constitui a prova mais notável da mentalidade pastoril dos Nuer.
Leite e sorgo constituem os
principais alimentos do Nuer. Em alguns lugares de sua região, especialmente
entre os Lou, é difícil que as reservas de sorgo durem o ano todo e, quando se
esgotam, as pessoas passam a depender do leite e da pesca. Para um Nuer a
família mais feliz é aquela em que possui várias vacas que dão leite.
As necessidades humanas têm de se
subordinar às necessidades dos bezerros, que constituem o primeiro ponto a ser
levado em consideração se se quiser perpetuar o rebanho.
O número e distribuição atuais do
gado não permitem que os Nuer levem uma vida inteiramente pastoril como
gostariam, como é possível que tenha levado em alguma época. Uma economia mista
torna-se, portanto, necessária.
Os Nuer também se interessam pela
carne de gado, cozida ou assada. Eles não criam rebanhos para corte, porém
frequentemente sacrifica-se carneiros e bois nas cerimônias. Ocasiões normais
de comer carne são rituais e é o caráter festivo dos ritos que lhes dá muito de
suas significações para a vida do povo.
A habilidade do Nuer para cuidar
do gado não poderia ser melhorada nas presentes relações ecológicas,
consequentemente, de nada lhes serviria mais conhecimentos do que os que
possuem e se não fosse pela eterna vigilância e cuidado, o cuidado, o gado não
poderia sobreviver às condições desfavoráveis do meio ambiente.
A vaca é um parasita dos Nuer,
cujas vidas são gastas em garantir o bem-estar dela. O relacionamento é
simbólico: gado e homens mantêm sua vida graças aos serviços recíprocos.
O kraal é o lugar onde brincam, rolam
e pulam. Seus sentimentos em relação aos animais estão provavelmente dominados
pelo desejo de comida, pois as vacas, ovelhas e cabras satisfazem sem mediação
sua fome. O contato através da alimentação e dos jogos transformou-se em
contatos de trabalho.
O gado pode ser descrito pela cor,
formato de seus chifres e, já que os chifres dos bois são puxados à vontade do
dono, existem ao menos seis significações comuns em uso além de vários nomes
mais complexos. Uma gama ainda maior é a permutações é criada por prefixos que
denotam o sexo ou idade de um animal. Esse vocabulário intricado não é técnico
e específico, porém é empregado por todos e em muitas situações da vida social
normal.
Outra maneira pela qual se pode
demonstrar o envolvimento dos Nuer com o gado é observando a vontade e a
frequência com que lutam por ele, uma vez que as pessoas arriscam suas vidas
por aquilo a que dão grande valor- e em termos desses valores.
Para um Nuer Gado é riqueza.
Lutar pela propriedade do gado e
tomar gado pelo que se chama de dívidas e ressarcimento de perdas é muito
diferente pilhar gado sobre o qual nenhum direito.
Explicar a guerra entre os Nuer e
Dinka fazendo referências somente ao gado e pastos é simplificar demais, mas a
luta em si somente pode ser totalmente compreendida enquanto processo
estrutural e é assim que a apresentaremos mais adiante.
O sistema ecológico do qual fazem
parte os Nuer e seu gado, para descobrir as contradições em que se pratica a
criação de gado e até que ponto a prática em um determinado meio ambiente
influencia a estrutura política.
Capitulo 2: Ecologia
Para um pecuarista europeu a
terra dos Nuer não seria adequada para o gado. Condições difíceis tanto para o
homem quanto para o gado. Porem os Nuer as consideram o melhor lugar do mundo,
com condições e características admiráveis. Há toda uma gama de características
que tornam o território Nuer seco e com pouca pastagem nas estiagem e alagadiço
e pantanoso nos períodos de chuva. Áreas
de savana, riachos pouca elevação de solo compõe a paisagem destes territórios.
A escassez de chuva causa a
redução do nível do rio e uma consequente diminuição de obtenção de alimentos.
Principais características das terras Nuer: (1) absolutamente plana; (2) possui
solo argiloso; (3) possui florestas muito ralas e esporádicas; (4) fica coberta
por relva alta nas chuvas (5) está sujeita as chuvas fortes; (6) é cortada por
grandes rios que transbordam anualmente; (7) quando cessam as chuvas e os rios
baixam o nível, estão sujeita a seca severa.
Até que ponto os Nuer são
controlados pelo meio ambiente enquanto pastores, pescadores e agricultores?
A região que ocupam é mais
propicia a criação do gado do que a agricultura, ainda assim cultivam o sorgo.
Se vivessem apenas da agricultura teriam uma vida possivelmente precária. Por
condições climáticas não podem viver o ano inteiro na mesma localidade,
alternando áreas secas e alagadiças por conta do cultivo e da criação do gado.
O problema da água (excesso ou
escassez) relaciona -se intimamente com o da vegetação. Sazonalmente os Nuer
procuram tanto por pastagens quanto por água para beber e conduzem o gado para
onde sabem poder encontrar estes recursos. Começo das chuvas: estação de engorda.
Porem a medida em que as chuvas aumentam a vida se complica, mudam então para
regiões mais altas onde a pastagem está propicia. Logo que se estingue é hora
de voltar para as áreas mais baixas. Sem essa rotina não seria possível a
sobrevivência do gado e por consequente o estilo de vida Nuer.
Seções e aldeias diferentes
tendem a mudar-se por volta da mesma época e a visitar os mesmos reservatórios
todos os anos, embora variem o tempo, espaço e, certo ponto, o grau de
concentração de acordo com as condições climáticas.
Quando começam as chuvas em maio
as pessoas mais velhas retornam as aldeias para preparar o solo para o plantio,
então reúnem os mais jovens em junho desfazem todo o acampamento e trazem
consigo o gado. O movimento das aldeias para acampamentos é menos tranquilo. Os
membros mais jovens formam um pequeno acampamento, depois das queimadas de
novembro, quando e onde desejam. Dias depois outros membros da aldeia juntam-se
a eles. A aldeia continua habitada enquanto ainda houver tarefas a serem
cumpridas. Todos mudam-se para o acampamento quando este já se transformou em
uma aldeia.
O ano para os Nuer é uma
constante preparação e mudança pautado pelas chuvas e estiagens. O que é
preciso para formação de uma aldeia não é apenas o local para a habitação.
Necessita-se de água suficiente para população e gado e extensas áreas de
pastagem e cultivo.
Uma casa Nuer consiste de um
estabulo e algumas choupanas muito bem elaborados de taipa e palha. As
construções e reparações são feitas geralmente nos períodos de seca. Durante as
chuvas são erguidas as cercas para controlar o movimento do gado, para que não
entre nas casas ou estraguem as colheitas. Nos acampamentos os homens dormem em
abrigos contra o vento e as mulheres em choupanas em forma de colmeia. Esses
frágeis abrigos são erguidos a poucos metros da água.
Outra circunstância que determina
os movimentos dos Nuer é a abundância de insetos, que, constituem uma ameaça a
tranquilidade e saúde do gado. Deve ser levado em consideração a presença de
microrganismos causadores de varias doenças a humanos e reses. O gado sofre, se
estressa e produz menos leite.
Os rios possuem muitos peixes e
espécies e estes constituem boa parte da dieta Nuer. Quando a perda ou redução
na safra de sorgo ou epidemias atacando o gado, estes peixes significam a
sobrevivência deste povo. Ao escolher um local de acampamento leva-se sempre em
conta as possibilidades de pesca. Os melhores meses de pesca são novembro e
dezembro quando os rios começam a baixar e a drenar os riachos e lagoas. Os
peixes ficam represados e a pesca facilitada considerando as técnicas Nuer de
pescaria.
A terra Nuer é muito rica em
caça, porem os Nuer não se dedicam intensivamente a esta atividade. Enormes
rebanhos de tiang e cob, antílopes, elefantes e hipopótamos. Os Nuer comem
diversos tipos te animais exceto carnívoros, macacos e roedores pequenos. Os
Nuer matam leões e leopardos somente quando estes constituem ameaça ao gado. A
posse de rebanhos de vacas e ovelhas justifica o desinteresse Nuer pela caça. A
caça Nuer possui a mesma simplicidade de suas técnicas de pesca. Utilizam-se de
poucos artifícios e armadilhas modestas.
Frutas selvagens, sementes e
raízes não constituem parte importante da dieta Nuer. A região está, em grande
parte, destituída de arvores e as frutas, portanto, são poucas. As frutas
amadurecem de janeiro a março e come-se tanto as sementes quanto a pouca
adocicada. Colhe-se também as sementes de arroz selvagem e varias plantas selvagens
que crescem nas aldeias e são utilizadas como tempero de mingau. Nas secas
estes recursos complementam a dieta do Nuer. Basicamente a caça e a coleta de
frutas e vegetais são ocupações dos períodos da seca e estas dentem a diminuir
nos períodos de chuva.
Condições
climaticas desfavoraveis para agricultura iinviabilizam o cultivo de uma maior
variedade de plantas, como raizes e grãos.
O sorgo e o cultivo que melhor se adapta a essas condições. Este é o
primeiro cereal a ser colhido quando as reservas começam a se esgotar. O sorgo
precisa ser cultivado nas areas mais elevadas pois não se desenvolve bem na
água.
Há
terra suficiente para a agricultura dentro da escala Nuer de exploração do
solo. Não surgindo conflitos sobre a divisão de terras a este respeito. São
todos aparentados e parentes não brigam
por causa de hortas. Enquanto amadurece a primeira safra o terreno já estará
sendo preparado para a segunda que será semeado pouco depois de a primeira ser
colhida. O sorgo é consumido como mingau e cerveja em grandes quantidades nos
meses entre a primeira colheita e a partida para os acampamentos.
.
O cultivo é feito seguidamente ano após ano até que o solo se esgote para daí
então mudarem o seu local de moradia e é claro, de cultivo. As hortas são
pequenas e os Nuer não veem necessidade de contruirem celeiros para estoque de
produção. Para armazenamento utilizam-sede
vasilhames feitos de plantas e ceramica. Consideram a agricultura uma
necessidade infeliz. Um trabalho duro e desagradavel que os afasta do convivio
com o gado. Consideram-se boiadeiros e só são felizes quando estão cuidando do
seu gado.
Capítulo 3: Tempo e Espaço
Analise do interesse dos Nuer
pelo gado e a descrição de sua ecologia. As limitações ecológicas e outras
influenciam suas relações sociais, onde as relações ecológicas é igualmente
significativo para a compreensão do sistema social, que é um sistema dentro do
sistema ecológico, parcialmente dependente desde e parcialmente existindo por
direito próprio.
Todos os conceitos de espaço e tempo
são determinados pelo ambiente físico, mas os valores que eles encarnam
constituem apenas uma das muitas possíveis respostas a este ambiente e dependem
também de princípios estruturais, que pertencem a uma ordem diferente de
realidade.
Os períodos maiores de tempo são
quase que inteiramente estruturais, porque os acontecimentos que relacionam são
mudanças no relacionamento de grupos sociais. Além disso, o cálculo do tempo
baseado nas mudanças da natureza e na resposta do homem a elas limita-se a um ciclo
anual e, portanto, não pode ser empregado para diferenciar períodos mais longos
do que estações do ano.
O ciclo ecológico é de um ano. O
ano tem duas estações principais, Tot e Mai.
·
Tot:
de meados de março a meados de setembro, corresponde grosseiramente ao aumento
na curva de precipitação de chuvas.
·
Mai: começa no declinar das chuvas, de
meados de setembro a meados de março.” (p. 108)
O conceito de estações deriva
mais das atividades sociais do que das mudanças climáticas que as determinam, e
o ano consiste para os Nuer num período de residência na aldeia (cieng) e em
outro de residência no acampamento (wec).
As necessidades do gado e as
variações no suprimento de alimentos que traduzem principalmente o ritmo
ecológico para o ritmo social do ano.
Nuer adotam tot e mai enquanto
metades de seu ano e falam também das estações rwil e jiom. Rwil é o período de mudança do
acampamento para a aldeia. Jiom é o
período em que o vento do Norte começa a soprar e as pessoas colhem o que
plantaram. Um sistema de doze meses não afeta os Nuer, pois o calendário está
ancorado ao ciclo de mudanças ecológicas.
Não há unidades de tempo dentro
do mês, dia e noite. As pessoas indicam a ocorrência de um acontecimento há
mais de um dia ou dois fazendo referência a algum outro acontecimento que tenha
ocorrido ao mesmo tempo ou contando o número dos “sonos” intercorrentes ou, o
que é menos comum, dos “sóis”. Quando os Nuer desejam definir a ocorrência de
um acontecimento com vários dias de antecedência, tal como uma dança ou
casamento, eles o fazem tomando como referência as fases da lua.
Contam o tempo no dia pelo
círculo de tarefas pastoris, e a hora do dia e a passagem do tempo durante o
dia são para o Nuer, fundamentalmente, a sucessão dessas tarefas e suas relações
mútuas.
O sistema Nuer de contagem de
tempo dentro do ciclo anual e das partes do ciclo consiste numa série de
concepções das mudanças naturais e que a seleção de pontos de referência é
determinada pela significação que essas mudanças naturais têm para as
atividades humanas.
Conjuntos etários: existem seis
conjuntos em existência, os nomes dos conjuntos não são cíclicos e a ordem dos
conjuntos extintos é logo esquecida, de modo que a contagem por conjuntos
etários possui sete unidades que abrangem um período de algo menos do que um
século.
O tempo estrutural é, em certo
sentido, uma ilusão, pois a estrutura permanece bastante constante e a
percepção do tempo não é mais do que o movimento de pessoas. Assim, os
conjuntos etários sucedem-se uns aos outros para sempre, mas jamais há mais de
seis existindo ao mesmo tempo e as posições relativas ocupadas por esses seis
conjuntos são, a todo o momento, pontos estruturais fixos através dos quais
passam conjuntos reais de pessoas em eterna sucessão.
O sistema Nuer de linhagens pode
ser considerado como um sistema fixo, havendo um número constante de graus
entre pessoas vivas e o fundador clã, e tendo as linhagens uma posição de
parentesco constante umas com as outras. Seja qual for o número de gerações que
se segue umas às outras, a profundidade e ampliação das linhagens não aumenta a
menos que haja mudanças estruturais.
O espaço ecológico é mais do que
a mera distância física, embora seja afetado por ela, pois também é calculado
por meio do caráter da região que se situa entre grupos locais e por meio da
relação dessa região com as exigências biológicas de seus membros. A distância
ecológica é uma relação entre comunidades definida em termos de densidade e
distribuição, e com referência a água, vegetação, vida animal e de insetos e
assim por diante.
“Por distância estrutural é a
distância entre grupos de pessoas dentro de um sistema social, expressa em
termos de valores. A natureza da região determina a distribuição das aldeias e,
por conseguinte, a distância entre elas, porém os valores limitam e definem a
distribuição em termos estruturais e fornecem um conjunto diferente de
distância.
As condições físicas que são
responsáveis pela escassez de alimentos e uma tecnologia simples provocam uma
baixa densidade e uma distribuição esparsa das áreas de fixação. A falta de
coesão política e de desenvolvimento pode ser relacionada com a densidade e
distribuição dos Nuer e a simplicidade estrutural também pode ser devida às
mesmas condições. O tamanho dos trechos de terreno mais elevado e as distâncias
entre eles permitem, em algumas partes da terra Nuer, uma concentração maior e
mais compacta do que em outras
Uma aldeia é uma comunidade
vinculada pela residência comum e por uma rede de parentesco e laços de
afinidades, cujos membros formam um acampamento comum, vivendo coletivamente e
fazem as refeições nos estábulos e abrigos contra o vento dos outros. Uma
aldeia é o menor grupo Nuer que não é especificamente de ordem de parentesco e
é a unidade política da terra dos Nuer.
Um grande acampamento recebe um
nome de acordo com a linhagem que predomina nele e segundo a comunidade da
aldeia que o ocupa, e pequenos acampamentos algumas vezes recebem o nome de um
ancião de importância que ali tenha construído seu abrigo contra o vento. Cada
uma tem seu território particular e possui e defende seus próprios locais de
construção, seus pastos, reservas de água e reservatórios de peixes. Os membros de uma tribo têm um sentimento
comum para com sua região e esse sentimento evidencia-se no orgulho com que
falam de sua tribo enquanto objeto de sua lealdade, na depreciação jocosa de
outras tribos.
Nuer e Dinka: a luta intertribal é
considerada feroz e perigosa, porem mulheres e crianças nada sofrem, casas e
estábulos não são destruídos e não se fazia prisioneiros. E, também, os demais
Nuer não são considerados presa natural, apenas os Dinka.
Além desses sistemas de relações
políticas diretas, todo o povo Nuer se vê como uma comunidade única e sua
cultura, como uma cultura única. A oposição aos vizinhos dá aos Nuer uma
consciência de grupo e um forte sentimento de serem exclusivos. Sabe-se que
alguém é Nuer por sua cultura. Todos os Nuer vivem num território contínuo. Não
há seções isoladas. Contudo seu sentimento de comunidade é mais profundo do que
o reconhecimento da identidade cultural. Os limites da tribo não são os limites
do intercâmbio social, existem muitos vínculos entre os membros de uma tribo e
os membros de outra. Por meio da associação ao sistema de clãs e pela
proximidade, os membros de uma tribo podem considerar-se mais próximos de uma
segunda do que de uma terceira.
A estrutura política dos Nuer só
pode ser compreendida quando colocada em relação a de seus vizinhos, com quem
formam um único sistema político. Tribos Nuer e Dinka são segmentos dentro de
uma estrutura comum, tanto quanto o são os segmentos de uma mesma tribo Nuer.
Seu relacionamento social é de hostilidade, que encontra sua expressão na
guerra. As relações que poderiam ser consideradas por guerras eram as com as
várias tribos Dinka que fazem fronteira com a terra dos Nuer. A luta entre os
dois povos tem sido incessante desde tempos imemoriais e parece ter atingido um
estágio de equilíbrio antes que a conquista europeia o perturbasse.
A guerra entre Dinka e Nuer não é
meramente um conflito de interesses, mas é também um relacionamento estrutural
entre os dois povos; e tal relacionamento requer um certo reconhecimento, por
ambos os lados, de que cada um, até determinado ponto, a partilha dos
sentimentos e hábitos do outro. Quanto mais próximos dos Nuer estão os povos em
termos de subsistência, língua e costumes, mais intimamente os Nuer os encaram,
mais facilmente iniciam relações de hostilidade com eles e mais facilmente
fundem-se a eles.
Capitulo 4: Sistema Político
As tribos Nuer se dividem em
segmentos. Os segmentos tribais maiores são chamados de seções primarias. Estas
seções primarias são subdivididas em seções secundárias e por fim estas seções
secundárias são divididas em seções terciarias.
Os
segmentos de uma tribo possue muitas das caracteristicas da propria tribo.
Possuem um nome diferente, um sentimento comum e um território único. Uma seção
em geral, está nitidamente separada de outra por uma longa extensão de mato ou
um rio. Segmentos de uma mesma tribo tambpem tendem-se a voltar-se em direções
diferentes para as suas pastagens da seca.
Quanto menor o segmento tribal
mais compacto será o seu território, mais contíguos estão os seus membros, mais
variados e íntimos são os seus laços sociais genéricos e mais forte é o seu
sentimento de unidade. Quanto menor um segmento, mais próximas são as relações
genealógicas entre seus membros. A coesão política não varia somente nas
variações da distância política, mas também na função da distância estrutural
de outros tipos.
Os membros de qualquer segmento
se unem na guerra com segmentos adjacentes contra seções maiores. Esse
principio estrutural é evidente e compreendido por todo Nuer. As aldeias que
compõe cada seção juntar-se-ão para a luta em uma coesão da menor seção
terciaria até a seção maior primaria. Os Nuer costumam exprimir as obrigações
sociais empregando expressões de parentesco. Unem-se para guerrear contra
qualquer outra seção seguindo as suas linhas de parentesco.
O principio de segmentação e a
oposição entre segmentos é o mesmo em cada seção de uma tribo e estende-se além
da tribo para as relações entre tribos, especialmente entre as tribos menores
do Oeste que se juntam com maior facilidade para saquear os Dinka e lutar uns contra
outros do que as tribos maiores a leste do Nilo. Dentro de cada uma dessas
seções havia disputas constantes. É entre aldeias e seções tribais terciarias
que ocorrem com maior frequência as brigas e que se desenvolvem as disputas.
O sistema político Nuer é uma
serie em expansão de segmentos opostos a partir das relações dentro da menor
seção até as relações entre tribos e estrangeiros, pois a oposição entre
segmentos da menor seção parece-nos ter o mesmo caráter estrutural que a
oposição entre uma tribo e seus vizinhos Dinka, embora a forma de sua expressão
seja diferente. As tribos Nuer constituem uma avaliação na distribuição
territorial e as relações tribais, intertribais e estrangeiras são modos
padronizados de comportamento através dos quais se expressam os valores. O
valor tribal é, portanto, relativo e a qualquer momento está vinculado a uma
determinada extensão de uma serie em expansão de relações estruturais, sem
estar inevitavelmente fixado a essa extensão.
Há menos solidariedade, quanto
mais amplo o circulo de uma aldeia para as tribos adjacentes, há sempre maior
oposição entre dois grupos do que entre segmentos deles. Quanto mais frequentes
e múltiplos os contatos entre membros de um segmento mais intensa é a oposição
entre eles. Proximidade demais afeta a relação.
Vendeta: as vendetas constituem
uma instituição tribal. Trata-se de uma espécie de infração a lei e
soluciona-se através de ressarcimento. O temor de provocar uma vendeta é a mais
importante sanção legal dentro de uma tribo e a principal garantia da vida e da
propriedade de um indivíduo. Se uma tribo tentar vingar um homicídio contra a
comunidade de outra tribo, segue-se uma situação de guerra intertribal. Mais do
que uma situação de disputa e não há modo de resolver a questão por arbitramento.
Devido o temperamento natural dos Nuer as pessoas são mortas com frequência.
Desentendimentos em relação a uma vaca, um animal comer o sorgo alheio, bater
no filho de alguém ou adultério, são alguns dos motivos mais comuns de vendeta.
A briga ocorre geralmente logo após o insulto. São sensíveis e se ofendem com
facilidade.
Resolução de uma vendeta: assim
que um homem mata outro, este corre para a casa do chefe da pele de leopardo
onde busca refugio e mediação para o seu crime. Ele não poderá comer e nem
beber enquanto estiver sujo com o sangue do morto. Serão feitas duas incisões
em seu braço e presenteará o chefe com um novilho, um carneiro ou um bode que
será sacrificado, este rito é chamado de bir.
A vingança é obrigação dos parentes do morto, mas a casa do chefe da pele
de leopardo este tem asilo e não pode ser punido. Após algumas semanas de
tensão o chefe inicia as negociações com os parentes da morte, quanto custara o
ressarcimento e de que forma ele será feito, porem não há garantias que após o
pagamento a vingança não irá ocorrer.
Um homicídio não diz respeito
apenas ao homem que o cometeu, mas também aos seus parentes mais próximos. Há
uma mutua hostilidade entre os parentes ágnatos próximos. Apesar de pagamentos
e sacrifícios, uma vendeta continua para sempre e será sentido por todos os
parentes próximos.
Os pagamentos de vendeta estão
diretamente relacionados a proximidade entre assassino e morto. Quanto mais
próxima a relação familiar ou linhagem, mais rápida e branda é a negociação,
pois não querem dissolver por completo os seus laços. O tempo e o valor da
indenização têm a ver com a habilidade de negociação dos parentes do morto para
arrancar o máximo de cabeças de gado da família do assassino.
Uma briga entre famílias pode
desenvolver-se em uma hostilidade entre segmentos e este pode envolver
segmentos maiores das quais fazem parte. Uma luta entre duas aldeias pode,
portanto, causar uma luta entre seções tribais secundárias ou mesmo primárias.
Cinco elementos importantes de um
acordo por intermédio do chefe são: (1) desejo do litigante de resolver a
disputa; (2)a santidade da pessoa do chefe e seu tradicional papel de mediador;
(3)discussão e acordo entre todos os presentes (4) sentimento de que um homem
pode ceder sem perder a sua dignidade e (5)
reconhecimento , pela parte perdedora, da justiça no caso apresentado
pela outra parte.
O
que seria o conceito de lei para os Nuer pode ser muito melhor caracterizado
como obrigação moral ou dever de reparação.
Não há uma regra clara ou uniforme dentro de uma tribo, mas é relativa a
posição das pessoas na estrutura social, a distancia que as separa no sistema
de parentesco, de linhagem, de conjunto etário e acima de tudo, politico.
Quanto mais ampla a area que contem as partes de um litigio, mais fraco o
sentimento de obrigação de soluciona-lo. No interios das aldeias os conflitos
são mediados pelos anciãos. Litigios contra membros de aldeias vizinhas podem
ser resolvidos por meio de acordos. A lei Nuer é tão flexissivel em suas regras
quanto a sua estrutura. Os Nuer possuem um agudo senso de direito e
dignidade pessoal.
A ausência de órgãos de governo,
de instituições legais, de liderança desenvolvida e, em geral, de vida política
organizada é notável. A anarquia ordenada em que vivem combina muito bem com o
seu caráter, pois é impossível viver entre os Nuer e conceber a existência de
pessoas que os governem.
O Nuer é produto de uma educação
árdua e igualitária, é profundamente democrático e facilmente levado a
violência. Seu espirito turbulento considera toda limitação aborrecida e
ninguém reconhece um superior. Riqueza não representa coisa alguma. Um homem
com muito gado é invejado, mas isso não o torna melhor que outro que possua
pouco gado. O nascimento não faz diferença alguma. Um homem pode não ser membro
do clã dominante de sua tribo, pode ser mesmo de descendência Dinka, mas se
alguém aludir a esse fato ocorrerá o grave risco de receber um tacapaço.
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