Os Estabelecidos e os Outsiders
Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade
Norbert Elias e John Scotson
Apresentação à Edição Brasileira Federico Neiburg
Trata-se de uma etnologia, resultado de quase três anos de trabalho de campo em que foi observado a relação de poder entre a elite establishment de Winston Parva (nome fictício para a comunidade estudada) e os demais indivíduos dessa comunidade outsiders.
Establishment: grupo formado pelos established que se auto percebe reconhecido como a “boa sociedade”, mais poderosa e melhor (tradição, autoridade e influência);
Outsiders: os “outros” (no plural pois não formam um grupo social)
- À margem do establishment;
- Estigmatizados por todos os atributos associados com a anomia, delinquência, a violência e a desintegração;
Os estabelecidos e os outsiders são separados por um laço tenso e desigual de interdependência:
- Superioridade social e moral;
- Auto percepção e reconhecimento;
- Pertencimento e exclusão.
Outsiders e establishment é uma forma tipicamente inglesa de conceituar as relações de poder de modo abstrato ou puro, independente dos vários contextos concretos nos quais as relações podem realizar-se.
Sobre:
- Scotson era professor em Winston Parva e Elias trabalhava no programa de educação de adultos da mesma região;
- Trabalho realizado em meados de 1950;
- Editado em 1965 quando Elias era professor na Universidade de Leicester;
- Trabalho mais importante de Norbert Elias enquanto esteve no Reino Unido (quase 40 anos);
- Trabalho empírico (estudo de comunidade) que ia na contramão da sociologia de língua inglesa pós Segunda Guerra Mundial, focada no modelo estrutural funcionalista;
- Estudos de comunidade eram os outsiders da sociologia da época.
- Monografia que combina estatísticas oficiais, relatórios governamentais, documentos jurídicos e jornalísticos, entrevistas e principalmente observação participante.
- Noção durkheimiana de anomia e suicídio (contra o sentido de não estrutura que estigmatizava ainda mais os outsiders);
- Relaciona a relação de gênero e raça nos EUA em meados de séc. XIX pós abolição dos escravos; entre alemães e judeus entes da Segunda Guerra Mundial.
Nota Introdutória Stephen Mennel
John Scotson estava interessado na delinquência juvenil;
Elias queria esclarecer a maneira como um grupo de pessoas é capaz de monopolizar as oportunidades de poder e utiliza-las para marginalizar e estigmatizar membros de outro grupo muito semelhante.
No ensaio teórico sobre as relações entre estabelecidos e outsiders, Elias esclareceu como era possível aplicar sua teoria a toda uma gama de padrões mutáveis da desigualdade humana: relações entre classes, grupos étnicos, colonizadores e colonizados, homens e mulheres, pais e filhos, homossexuais e heterossexuais.
Prefacio Norbert Elias e John Scotson
Estabelecidos e os outsiders começou com os moradores de Winston Parva chamando a atenção para o nível de delinquência sistematicamente mais elevado do que o dos outros bairros. Os estudos sobre a delinquência os levou a compreender a diferença de caráter e a relação entre os bairros de Winston Parva. Os bairros mais antigos estigmatizavam sistematicamente os bairros mais recentes (dois maiores bairros). Mesmo com a redução dos níveis de delinquência entre os eles.
Estudo autônomo que por não depender de terceiros pode mudar o foco e entender que o problema da delinquência era sim um sintoma de algo maior.
A pesquisa lançou luz sobre os méritos e limitações dos estudos micros sociológicos intensivos. O microcosmo de Winston Parva sugeriu hipóteses que poderiam servir de guia até mesmo para levantamentos macrossociológicos. A pesquisa indicou que os problemas em pequena escala do desenvolvimento de urna comunidade e os problemas em larga escala do desenvolvimento de um país são inseparáveis.
Introdução
Ensaio teórico sobre as relações estabelecidos-outsiders
Autoimagem dos grupos: os estabelecidos (os mais poderosos) sentiam-se superiores (melhores) que os demais e os outsiders tratados como pessoas de menor valor humano;
De que modo uns grupos mantem entre si a crença que são melhores do que o outro? Que meio utilizam para impor crença em sua superioridade humana sobre os outros?
Os estabelecidos recusavam-se em manter contato social com quem considerava outsiders, logo quem fosse recém-chegado a cidade também assumiam uma espécie de resignação e perplexidade em relação aos estabelecidos assumindo a posição de menor virtude e respeitabilidade, gerando assim uma constante universal nesta trama.
Um tabu em torno desses contatos estabelecidos-outsiders era mantido através de meios de contato social como a fofoca elogiosa, no caso dos que os observavam e a ameaça de fofocas depreciativas contra os suspeitos de transgressão. A
peça central dessa figuração é um equilíbrio instável de poder, com as tensões que lhe são inerentes.
Um grupo só pode estigmatizar outro com eficácia quando está bem estalado em posições de poder das quais o grupo estigmatizado é excluído;
O estigma social sobre os outsiders serve para os enfraquecer e desarmar, porem essa capacidade de estigmatizar diminui ou até se inverte quando os estabelecidos perdem suas fontes de poder e fica impedido de excluir os demais membros da sociedade.
Em Winston Parva os residentes mais antigos criaram um padrão comportamental, um determinado estilo de vida em suas tradições comunitárias que se orgulhavam. Assim, para preservar sua identidade grupal. Excluíam todos os moradores mais recentes e suas influências externas consideradas ruins. Os outsiders são vistos comumente pelos estabelecidos como anômicos, portanto, visto como desagradável. Considerados um risco ao grupo estabelecido. (pag.26)
Há exemplos de outsiders em todas as sociedades humanas: crioulo, gringo, carcamano, sapatão, papa hóstia são alguns exemplos. Todos esses termos simbolizam o fato de que é possível envergonhar o membro de um grupo outsider, por ele não ficar à altura das normas do grupo superior, por ser anômico em termo dessas normas. Outsiders são vistos como indignos de confiança, indisciplinados e desordeiros. (pag.29)
Os grupos estabelecidos tendem a identificar características negativas/pejorativas nos grupos que apontam como outsiders como meio de autovalorização de suas características que julgam superiores. Um exemplo é dizer que um grupo de operários é sujo e não preza pela higiene em suas casas, para com isso valorizar os seus próprios hábitos de higiene. (pag.33)
Em situação de fome o indivíduo prioriza a sobrevivência acima de outras necessidades. Podem até perder suas características que os distinguem como humanos: se humilhar, roubar ou matar. Numa situação como esta também pode estar em jogo as disputas de poder entre os grupos humanos. Um grupo dominante busca manter condições contrastantes (renda, alimentação, moradia e educação) para obter vantagens em seu benefício.
O diferencial de poder entre estabelecidos e outsiders é muito. Se os outsiders não têm nenhuma função para os grupos estabelecidos simplesmente são exterminados ou postos de lado até perecerem. O inverso ocorre, quando os grupos outsiders são necessários de algum modo aos grupos estabelecidos (se houver têm alguma função para estes) a relação de poder aparentemente diminui (pende um pouco a favor dos outsiders). EX: minorias em campanhas publicitárias ou prefeitos associados a erradicação da fome. (pag.34)
A superioridade de poder confere vantagens aos grupos que a possuem. Que outra vantagem há em manter sua superioridade? Que outras privações sofrem os grupos outsiders, além de econômicas? Há outros fatores além do econômico. Também ocorre aqui uma luta física por sobrevivência de seus padrões de vida que temem perder com a mudança de valores da sociedade.
O estigma de inferioridade pode estar relacionado a uma fantasia coletiva criada pelo grupo estabelecido. Ela reflete e, ao mesmo tempo, justifica a aversão — o preconceito — que seus membros sentem perante os que compõem o grupo outsider. O estigma social que seus membros atribuem ao grupo dos outsiders transforma-se, em sua imaginação, num estigma material. EX: homossexualidade é pecado / a noção de carma ou encosto. (pag.35)
A relação estabelecidos-outsiders não é estática podendo sim ocorrer um equilíbrio entre esses dois grupos paralisando a opressão sofrida e até uma inversão dos papeis ou o desaparecimento do grupo que ates ocupara o papel de estabelecido. (pag.36)
Evidenciando o problema de distribuição de chances de poder entre estes dois grupos torna-se mais fácil identificar os fatores relacionados e buscar a reconfiguração desse sistema.
Quando indivíduos se reconhecem como um grupo tendem a se tratarem como nós e excluírem todos os demais que não apresentem as mesmas características (eles). Esse fator exclusivo encontra-se tanto entre os estabelecidos quanto nos outsiders. A opinião do grupo passa a ser a função e o caráter de consciência do próprio indivíduo. Quando o diferencial de poder é suficientemente grande, um membro de um grupo estabelecido pode ser indiferente ao que os outsiders pensam dele, mas raramente ou nunca é indiferente à opinião dos seus pares. ( Pag.40)
Grupos estabelecidos reforçam as regras e restrições entre si mesmos e ao grupo dominado, desta forma mantem a coesão, sendo um sinal de carisma do próprio grupo e a desgraça de seus outsiders. (pag.48)
As relações entre estabelecidos e outsiders é mantida pelas diferenças entre as normas e, em especial, entre os padrões de autocontrole. Estabelecido tende a vivenciar essas diferenças como um fator de irritação, em parte porque seu cumprimento das normas está ligado a seu amor-próprio, às crenças carismáticas de seu grupo, c em parte porque a não observância dessas normas por terceiros pode enfraquecer sua própria defesa contra o desejo de romper as normas prescritas. Assim, os outsiders interdependentes, que são mais tolerantes no cumprimento de restrições cuja observância rigorosa é vital para os membros do grupo estabelecido, para que estes mantenham seu status perante seus semelhantes.
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