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Resenha do Discurso de Yasser Arafat em 1974 na Assembleia das Nações Unidas


Este trabalho faz parte da disciplina
 Formação Histórica do Mundo Contemporâneo
 ministrada pelo docente Dr. Muniz Ferreira.
 Trabalho apresentado na UFRRJ.



No dia 13 de novembro de 1974, Yasser Arafat se apresenta pela primeira vez diante da Assembleia das Nações Unidas representando a Organização pela Libertação da Palestina, OLP, o povo palestino e a sua causa.
Apresenta se para uma Assembleia ali composta por 138 nações. Uma ONU talvez mais disposta à possibilidade de reexame da Causa Palestina, para tal evoca a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a capacidade dos ali presentes de apoiarem as causas da paz e da justiça.
Em seu discurso, falando quase sempre em nome do povo palestino, une a sua causa a de tantos outros povos que também lutam pela paz, justiça liberdade e independência na Ásia, África e América Latina. Zimbábue, Namíbia, África do Sul e Palestina sofrendo pela opressão e violência provocadas pelo imperialismo e pela discriminação racial. Projeta uma ONU fortalecida onde triunfe as causas da paz, justiça liberdade e independência. Onde os povos não sejam explorados dos interesses escusos e onde não haja nenhuma forma de racismo, incluindo ente elas o sionismo[1]. Um mundo onde as relações territoriais sejam mantidas sobre a base do respeito mútuo. Onde os recursos humanos sejam utilizados para a redução do flagelo humano e das disparidades entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos.
Argumenta preocupação com a indústria da guerra, sua dispersão de riquezas e o grande desperdício de energia. Os avanços na tecnologia bélica e o eminente risco de uma destruição nuclear. Sobre o quão o mundo evoluiria se os gastos de guerra fossem convertidos em prol do desenvolvimento da humanidade.
Muda[2] o tom do discurso, de maneira mais emotiva, passa a se referir ao povo palestino como ‘nós’, discursivamente incluindo se na causa apresentada. Denomina o território da palestina como a ‘nossa parte do mundo’. Denuncia preparativos militares israelenses para uma possível quinta guerra com proporções catastróficas. Sempre apontando o sionismo como uma das mais cruéis formas de racismo e dominação atual que põe em risco a paz mundial. Com um certo otimismo proporcionado pela presença da OLP na Assembleia, acredita que o sionismo entrara em colapso juntamente com a antiga ordem mundial.
Direciona seu discurso à todos que sofrem com a opressão imperialista, que lutam pelas causas dos trabalhadores, que lutam pela liberdade para que, defendam a causa palestina como uma luta pelos direitos humanos de liberdade, paz e autodeterminação. Apontando os EUA como mantenedor de uma guerra injusta e da hostilidade entre os povos, traz a esperança do povo palestino por um futuro melhor, onde não haja necessidade de luta armada. A esperança de poder recuperar seus direitos a terra, suas origens históricas e não serem vistos apenas como refugiados.
Evocando a luta americana pela sua liberdade e independência, fala não aos EUA, mas sim ao povo americano, pedindo apoio a causa palestina. Lembrando que a palestina sempre foi um povo amigo, receptivo, lucrativo e jamais representou uma ameaça ao povo americano. Portanto não deveria ser visto como um povo inimigo.
Sempre aproximando a sua causa a tantos outros processos de colonização e exploração ocorridos na África, Ásia e América Latina, onde fatores como religião, cor, raça e língua foram utilizados para justificar a opressão. Entende o sionismo como resultado de um plano de conquista da palestina pelos imigrantes europeus e colonizadores. Uma ideologia imperialista, colonialista e racista Um processo cruel de exploração, opressão e pilhagem iniciado no final do século XIX e que se estende até os dias de hoje.
Aponta a Grã-Bretanha como a grande responsável pela invasão e dominação do território palestino. A palestina antes dos movimentos de imigração de judeus era uma população de meio milhão de habitantes, em sua maioria mulçumanos e cristãos. Haviam apenas vinte mil judeus. Entre 1882 e 1917 esse contingente se elevou para uma média de cinquenta mil judeus europeus. Com o estabelecimento da Liga das Nações [3] o povo árabe foi abandonado o que permitiu a consolidação do sionismo em seu país. Em 1947 já haviam cerca de seiscentos mil judeus ocupando 6% do território da palestina. Foram pressionados a divisão territorial cedendo 54% do território palestino aos colonizadores judeus, arrancando à força de seus territórios um milhão de árabes.  Hoje ocupam 81% da área total da palestina, 524 cidades e vilas árabes tomadas e 385 destas, completamente destruídas. A questão da Palestina ignorada na agenda das Nações Unidas.
Cita a Guerra de Suez e a Guerra dos Seis dias, a ocupação das colunas sírias de Golan como parte do projeto de expansão e dominação do mundo árabe pelo movimento imperialista-colonialista judeu. As consequências da Guerra da Ramada e a iminência de uma nova guerra.
Desmente o mito de que a Palestina era uma terra árida que só se tornou produtiva com a presença dos colonos. Que a invasão não prejudicou os palestinos. Defende a Palestina como berço das civilizações mais antigas. Que seu povo árabe sempre trabalhou pelo desenvolvimento da Palestina praticando e defendendo sempre a liberdade de culto em seu território. Que o sionismo nada tem haver com judaísmo. Trata-se de um movimento racista que se utiliza dos judeus para alcançar seus objetivos imperialistas.
Defende a legitimidade da OLP como um movimento revolucionário que luta para defender o povo palestino e o seu direito de território. Uma luta justa contra quem se propõe ocupar, colonizar e oprimir. Que todas as tentativas de resolução política do conflito não tiveram sucesso. O sonho palestino de voltar para casa, resistindo à opressão, à tirania e ao terrorismo sendo o único representante do povo palestino a estabelecer um Estado nacional independente.
            Ao final de seu discurso passa a falar não mais em nome do povo palestino e, em primeira pessoa se declara um rebelde que tem como causa a liberdade. Compara a sua causa a do revolucionário judeu Ahud Adif preso e julgado pelo tribunal militar israelense. Cita bispo Capucci que, em defesa da paz vira a ter o mesmo destino de Ahud Adif. Sonha com um retorno do seu povo e o convívio pacífico entre cristãos, judeus e mulçumanos em um ambiente de justiça, igualdade e fraternidade.

Bibliografia:

ARAFAT, Yasser. Discurso ante la Asamblea General de las Naciones Unidas. Marxists Internet Archive. Archivos Suplementarios, 2012. Disponível em: < https://www.marxists.org/espanol/arafat/1974/onu-13nov.htm > Acesso em: 20 de junho de 2018.


[1] O sionismo é um movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado nacional judaico independente e soberano no território de Israel.
[2] 16º parágrafo do discurso.
[3]  precursora da ONU

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