Este trabalho faz
parte da disciplina
de Filosofia da
Educação, ministrada
pelo Professor
Fernando Bonadia de Oliveira.
Dissertação
apresentada na UFRRJ.
Kant em a Educação dos filhos
Eu não quero deixar pro meu filho
A pampa pobre que herdei de meu pai[1]
(Gaúcho da Fronteira ,1990)
Os
pais, salvo graves exceções, sempre querem o melhor para os seus filhos. Querem
filhos prósperos, bem-sucedidos, competentes e acima de tudo felizes e
realizados. Mas como garantir o melhor futuro para nossas crianças? Para responder
a essa, que parece uma pergunta simples, será feito aqui o uso de alguns
preceitos educacionais desenvolvidos por Immanuel Kant e publicados por Theodor
Rink[2] sob o título de Sobre a
Pedagogia.
Educação
é o processo de construção do Homem[3]. A partir dela, que o
homem pode alcançar sua humanidade plena. Somente através da educação será
capaz de gozar sua liberdade. A liberdade só poderá ser alcançada a partir do
momento em que o homem compreende que deve cumprir a lei moral e é capaz de
cumpri-la. O papel da educação é aperfeiçoar as disposições que o homem já traz
dentro de si referentes a esta lei. Educação é um processo que se inicia em
casa, e, principalmente aqui, o papel dos pais nesse processo é fundamental.
Para
Kant[4] os pais devem criar os seus
filhos não para si, não pensando ou os preparando apenas para o mundo do agora,
com suas limitações e obstáculos. A educação é mais do que aprender a se
comportar e respeitar as regras sociais. Deve ser compreendida como e executada
de forma ampla, abrangendo vários aspectos e possibilidades. Ser treinado,
disciplinado e instruído todo homem pode ser. Cães e cavalos também. Não é
suficiente treinar as crianças, o que é preciso que estas aprendam a pensar.
É
preciso uma boa dose de cultura, pois se faz necessário humanidade neste
processo. Uma educação culta fornecerá as habilidades e ferramentas para a
mudança e desenvolvimento deste futuro homem. É preciso desenvolver a
civilidade para que este futuro homem seja prudente, que seja querido e tenha
influência, que saiba o seu lugar na sociedade, que se paute pela virtude e que
busque sempre o caminho do bem. Mas a virtude e o bem não como uma obrigação
doutrinada e sim uma consciência do que é certo, do que é melhor para todos. A
educação deve ser pensada e trabalhada para o desenvolvimento humano. Uma
educação que os prepare para novos tempos e para que possa acontecer um Estado
melhor no futuro. Uma educação voltada para o mundo, uma educação cosmopolita.
Pensar na educação dos filhos visando o futuro particular dos mesmos é um erro.
Um futuro confortável e seguro individual, mesmo que tentador e, até mesmo
natural, não deve ser objetivo único de nenhum pai para o seu filho.
Preocupar-se apenas com a educação dos filhos e qual função irão exercer no
futuro e assim garantir o próprio sustento não é a solução ideal. A educação
deve ser voltada para o todo. Pensar um futuro melhor para um filho é pensar o
um mundo com menos desigualdades e injustiças.
É
preciso criar filhos justos e solidários, que não pensem somente em si e que
sejam capazes de transportar e disseminar os germes dessa educação e os
desenvolver cada vez mais. Ninguém nasce mal. Não há esse princípio na natureza
humana. O mal surge na não educação, na não adequação as normas e no descaso. A
educação além de moldar o indivíduo para a vida em sociedade, ela deve prepará-lo
para a vida no aspecto humano, através de nossa liberdade e de nossa autonomia,
ou seja, sua principal função é fazer com que cresça em nós o senso de caráter.
Pessoas que têm caráter agem autonomamente por princípios, por máximas, e não
por algo que é imposto pelo exterior. Se, para Rousseau[5], era necessário à criança
um afastamento da sociedade para que pudesse desenvolver a partir de um
equilíbrio entre sofrimento e prazer o seu senso de felicidade, para Kant é
necessário que esse contato com o mundo o quanto antes, para que esta criança
aprenda desde cedo a viver em sociedade e saiba o que é necessário para se
tornar um indivíduo independente.
.
É
preciso dar e garantir liberdade a criança em seus movimentos, pois é a partir
do exercício da liberdade que se desenvolve a autonomia e a confiança.
Importante sempre resguardar a segurança da criança para que ela não ponha em
risco a si e nem permitir que ela venha a interferir no direito de liberdade de
outros. Faz se necessário ensina-la que é possível alcançar seus objetivos, mas
que seus objetivos não venham a se tornar empecilhos na vida de outros. Se realmente
queremos o melhor para nossos filhos, então é preciso cultivar a solidariedade.
Os
filhos em muito refletem os exemplos dos seus pais, como cantava João Nogueira
em seu Espelho[6]
É preciso que os tutores vivam o que ensinam, que sejam autônomos e livres, nos
seus pensamentos e em seu modo de agir. Que não sejam justamente eles os obstáculos
para o bom desenvolvimento de seus filhos. Pais capazes de pensar por si terão
as capacidades necessárias para permitir um desenvolvimento autônomo, livre das
armadilhas da minoridade, capazes de tomar suas próprias decisões. De seguir
seus próprios caminhos.
Bibliografia:
KANT,
Immanuel. Sobre a pedagogia. Tradução de Francisco Cock Fontanella. 3.ª Ed.
Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002.
DARDE,
Vaine & DA FRONTEIRA, Gaúcho. Herdeiro da Pampa Pobre. Álbum Gaitaço.
Chantecler. Rio Grande do Sul, 1990.
ROUSSEAU,
J.J. Emílio: ou, da educação. Tradução de Sérgio Milliet. 3.ed. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1995.
NOGUEIRA,
João. Espelho. Álbum Meus Momentos. EMI. Rio de Janeiro, 1993.
KANT,
Immanuel. Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento? Traduzido
por Luiz Paulo Rouanet. Disponível em: < https://bioetica.catedraunesco.unb.br/wp-content/uploads/2016/04/Immanuel-Kant.-O-que-%C3%A9-esclarecimento.pdf
>. Acesso em: 23 de junho de 2018.
[4] Sobre
a pedagogia. KANT, Immanuel. Tradução de Francisco Cock Fontanella. 3.ª Ed.
Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002.
[5]
Rousseau, J.J. Emilio: ou da educação. (1995, p. 62), “a felicidade do homem
nesta terra não passa, portanto de um estado negativo; deve-se medi-la pela
menor quantidade de males que ele sofre.
[6]
Espelho. Música popular brasileira.
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